IPOs: sempre cabe mais um
Postado em: 19. Feb, 2010 | Por: André Abou | Coluna: Bolsa de Valores
Ano novo chegando (afinal tudo só começa depois do carnaval mesmo…), todos planejando suas viagens, encontrando a família, os amigos e… Pensando no 2010 vindouro, claro! Para aqueles de nós que investem na Bolsa, é um momento de também avaliar o que esperar para 2010. Crise financeira mundial, aumento da taxa de juros… Todos temas que já sabemos serem importantes. Mas há também um tema bastante relevante a todos nós: o aquecimento da Bolsa de Valores. E nesse cenário entram os IPOs.
Como assim “aquecimento” e IPOs? A Bolsa não tem caído ultimamente? Calma… A Bolsa de Valores é um ponto de encontro entre agentes econômicos superavitários (que têm dinheiro sobrando) e agentes econômicos deficitários (que têm falta de dinheiro). É à Bolsa de Valores que empresas recorrem para captar recursos para investirem nelas mesmas, comprando mais máquinas, novas fábricas, construindo prédios etc. Ao invés de pegarem um empréstimo num banco, as empresas vendem uma parte de si na Bolsa (apesar de ser um bom negócio quando comparado com o empréstimo bancário, a empresa não pode depender apenas da Bolsa, de modo que os bancos ainda são necessários). Enquanto isso, pessoas como nós, que tiveram a destreza de guardar um dinheirinho todo mês, querem fazer esse dinheiro render. Elas então recorrem à Bolsa para comprar as partes das empresas que estão lá sendo vendidas, na esperança de que essas empresas valham cada vez mais com o tempo.
É nesse ambiente que convivemos quando entramos na Bolsa. Contudo, como também sabemos, esses investimentos envolvem riscos. Riscos altos! É só pensarmos nas quedas vertiginosas das Bolsas pelo mundo durante a crise financeira mundial, ou recentemente com a crise na Grécia. E nós, que suamos tanto para juntar nosso dinheirinho, não gostamos nada de vê-lo derreter, não é mesmo? Nem nós gostamos, nem as empresas que estão com suas ações na Bolsa. E um dos motivos delas não gostarem também é que com a Bolsa em queda, menos pessoas estarão dispostas a usar seu dinheiro extra (seu superávit), na compra de mais ações. Ou seja: caso uma empresa precise de dinheiro para um novo projeto, ela sabe que será arriscado recorrer à Bolsa para obter esse dinheiro. Vamos então entender esse momento em que as empresas se lançam (as Ofertas Públicas) na Bolsa e sua importância.
Como funciona
A BM&FBOVESPA, na negociação de ações especificamente, funciona mais ou menos como uma piscina de bolinhas. Cada cor de bolinha dentro da piscina representa as ações de cada empresa listada na Bolsa. Além disso o número de bolinha dentro da piscina é limitado por suas bordas, de modo que temos um número fixo total de bolinhas.
Quando compramos ou vendemos ações na Bolsa, em grande parte do tempo, estamos apenas mudando as bolinhas de dono, mas a empresa que emitiu essas bolinhas, quer dizer, ações, já não tem mais participação nessa brincadeira – o dinheiro não flui das nossas mãos para a empresa. E o número de bolinhas continua o mesmo.
Na verdade, porém, esse número de bolinhas pode, sim, mudar. É como se eles fizessem um puxadinho nas bordas da piscina e fizessem caber mais bolinhas lá dentro. É o caso das Ofertas Públicas de Ações! A empresa decide que quer emitir ações e as joga nessa piscina. Quem estiver interessado na empresa, compra essas ações e, apenas neste momento, o dinheiro dessa negociação vai para a empresa. Caso seja a primeira vez em que a empresa emite tais ações, chamamos essa oferta de IPO, pois é a oferta inicial. Às demais ofertas, chamamos de secundárias.
E o que as Ofertas Públicas têm de relevante?, você pensou. Muito! Imagine se essa piscina tivesse bolinhas de apenas uma cor, ou seja, ações de uma só empresa. Caso essa única empresa venha a falir, todos os seus acionistas vão perder todo o dinheiro colocado na piscina, ops!, na Bolsa! Ou então imagine que as pessoas não queiram mais investir na Bolsa e você seja a única pessoa a brincar por lá.
Tudo isso representa um grande risco para todo o sistema. A existência de poucas empresas listadas na Bolsa gera um risco de haver pouca diversificação, de modo que todos os investidores estarão suscetíveis aos mesmos problemas e crises. Por exemplo: se houver uma crise no preço do petróleo e só houver empresas desse ramo na Bolsa, a Bolsa inteira sofrerá com essa crise; por outro lado, se empresas dos mais diferentes ramos estiverem nessa piscina, é menos provável que os problemas da economia afetem a todas ao mesmo tempo. Além disso havendo poucas pessoas negociando ações, há menos chances de que essas poucas pessoas tenham dinheiro para comprar novas bolinhas, caso uma empresa venha a vendê-las.
A BM&FBOVESPA, na negociação de ações especificamente, funciona mais ou menos como uma piscina de bolinhas. Cada cor de bolinha dentro da piscina representa as ações de cada empresa listada na Bolsa. Além disso o número de bolinha dentro da piscina é limitado por suas bordas, de modo que temos um número fixo total de bolinhas.
Panorama
Agora que entendemos um pouco das Ofertas de Ações, mesmo que de um jeito lúdico, vamos entender a importância disso em 2010.
Lá nos idos de 2007, quando a Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa, vivia seus dias de glória, tivemos também o pico de Ofertas de Ações. Foram tempos áureos, todos ganhavam dinheiro e tudo era feliz.
Então veio a crise financeira mundial e um de seus reflexos foi a queda substancial das Ofertas de Ações na Bolsa. No gráfico acima, vemos as ofertas de ações na Bolsa, tanto primárias como secundárias. Mas vemos também que, apesar da crise, o valor em R$ que as empresas captaram na Bolsa em 2008 não chegou a ser menor que o captado em 2006. Mesmo assim o número de ofertas foi significativamente menor. Isso mostra que muitas empresas adiaram suas ofertas, ou as repensaram. Já em 2009, vamos uma clara recuperação nessas ofertas, mostrando uma perspectiva positiva para 2010.
E esse cenário não se aplica somente ao Brasil. O mundo está se aquecendo. Segundo o site Portal Fator Brasil o Brasil está em quarto no ranking das Bolsas que mais tiveram IPOs em 2009, perdendo apenas para as Bolsas de Hong Kong, Nova York e Xangai. Sem contar que apenas o IPO do Banco Santander aqui no Brasil foi o maior do mundo no ano!
E que vantagem Maria leva? Segundo Thomás Tosta de Sá, sócio-diretor da Mercatto Consultoria e coordenador do Comitê Executivo de Mercado de Capitais da BM&F Bovespa, “as empresas estão num processo de retomada de seu crescimento e de sua rentabilidade, e por isso, teremos o fator positivo de aumento do lucro das empresas, baseado nesse crescimento maior da economia e no clima otimista em relação ao Brasil.” Considerando que Maria somos nós, os investidores, nós ganhamos com confiabilidade, pois à medida em que houver mais empresas listadas na BM&FBOVESPA, menor o risco desse importante instrumento do sistema financeiro. A Bolsa tenderá a ser menos volátil, uma vez que o risco estará mais diluído. Nós teremos também mais opções de investimento e de diversificação. Teremos captação de recursos mais baratos para as empresa, o que as faz reduzir seus custos, gerando mais lucratividade e valorizando suas ações. E eu confesso que gosto bastante quando minhas ações sobem…
Quem diria que aquela piscina de bolinhas da nossa infância voltaria a ser tão divertida! Agora é só esperar 2010 engrenar…
Texto originalmente publicado no site Meu Milhão (www.meumilhao.com.br), no dia 11.01.2010. O texto foi editado para refletir as mudanças recentes no mercado financeiro.
Gostaria de agradecer ao Gustavo Prado pelas informações e pela presteza, ao Alexandre Neves pela foto magnífica e ao Adriano Trotta pela paciência.
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